Refletindo sobre a questão 945 de "O Livro
dos Espíritos" que pensar do suicídio que tem por
causa o desgosto da vida? Os Espíritos responderam: "Insensatos!
Por que não trabalhavam? A existência não lhes seria
uma carga!"
Sabemos que o suicida, além de sofrer no mundo
espiritual as dolorosas conseqüências de seu gesto impensado
de revolta diante das leis da vida, ainda renascerá com todas
as seqüelas físicas daí resultantes, e terá
que arrostar novamente a mesma situação provacional que
a sua flácida fé e distanciamento de Deus não lhe
permitiu o êxito existencial.
É preciso ter calma para viver, até porque
não há tormentos e problemas que durem para sempre. Recordemos
que Jesus nos assegurou que "O Pai não dá fardos
mais pesados que os ombros".
O suicídio é a mais desastrada maneira
de fugir das provas ou expiações pelas quais devemos passar.
É uma porta falsa em que o indivíduo, julgando libertar-se
de seus males, precipita-se em situação muito pior. Arrojado
violentamente para o Além-túmulo, em plena vitalidade
física, revive, intermitentemente, por muito tempo, os acicates
de consciência e sensações dos derradeiros instantes,
e fica submerso em regiões de penumbras onde seus tormentos serão
importantes, para o sacrossanto aprendizado, flexibilizando-o e credenciando-o
a respeitar a vida com mais empenho.
A religião, a moral, todas as filosofias condenam
o suicídio, como contrário às leis da Natureza.
Todas asseveram, em primeiro, que ninguém tem o direito de abreviar
voluntariamente a vida. Entretanto, por que não se tem esse direito?
Por que não é livre o homem de pôr termo aos seus
sofrimentos? Ao Espiritismo estava reservado demonstrar,pelo exemplo
dos que sucumbiram, que o suicídio não é uma falta
somente por constituir infração de uma lei moral, consideração
de pouco peso para certos indivíduos, mas também um ato
estúpido, pois que nada ganha quem o pratica, antes o contrário
é o que se dá, como no-lo ensinam, não a teoria,
porém os fatos que ele nos põe sob as vistas."
Não há como falar do assunto sem evocarmos
o sociólogo Emile Durkheim, que afirma existirem homens capazes
de resistir a desgraças horríveis enquanto outros se suicidam
depois de aborrecimentos ligeiros. Seria importante investigar a causa
desta resistência diversa e o que contribui para essa estrutura
maior ou menor.Interessante anotar que é nas épocas em
que a vida é menos dura que as pessoas a abandonam com mais facilidade.
Considerada a doença do século, responsável
por muitos dos suicídios, a depressão tem preocupado os
especialistas. Os psiquiatras estimam que de cada grupo de 100 pessoas,
15 tem a probabilidade de desenvolver a depressão. E um distúrbio
que ocorre por causa da alteração de substâncias
como a serotonina e a noroadrenalina. O quadro depressivo é gerado
por mudanças na produção e utilização
dos neurotransmissores cerebrais (noradrenalina, interferona, serotonina
e dopamina). Quando sua produção ou forma de produção
se altera pode gerar a depressão e daí para o suicídio
é uma porta escancarada.
E o suicida é, antes de tudo, o deprimido, e
a depressão é a doença da modernidade. O suicida
não quer matar a si próprio mas alguma coisa que carrega
dentro de si e que sinteticamente pode ser nominado de sentimento de
culpa e vontade de querer matar alguém com quem se identifica.
Como as restrições morais o impedem, ele acaba se autodestruindo.
Assim "o suicida mata uma outra pessoa que vive dentro dele e que
o incomoda profundamente".
A obsessão poderia ser definida como um constrangimento
que um indivíduo, suicida em potencial ou não, sente,
graças à presença perturbadora de um ser espiritual.
Vale a pena ler a descrição feita por Allan Kardec, em
"O Livro dos Médiuns." (cap. 23, 44º, ed. FEB,
RJ, 1981)
Diversas são as obras que comentam o assunto,
assim temos como exemplo "O Martírio dos Suicidas",
de Almerindo Martins de Castro, e "Memórias de um Suicida",
de Yvonne A. Pereira. Por outro lado não podemos esquecer que
Allan Kardec, no livro "O Céu e o Inferno" ou "A
Justiça divina segundo o Espiritismo", deixa enorme contribuição
em exame comparado das doutrinas sobre a passagem da vida corporal à
vida espiritual e, especificamente, no capítulo V da Segunda
parte, onde aborda a questão dos suicidas.
É verdade que após a desencarnação,
não há tribunal nem Juízes para condenar o espírito,
ainda que seja o mais culpado. Fica ele simplesmente diante da própria
consciência, nu perante a si mesmo e todos os demais, pois nada
pode ser escondido no mundo espiritual, tendo o indivíduo de
enfrentar suas próprias criações mentais.
Jorge Hessen - Distrito Federal
Artigo publicado na Revista "O Espírita"
Dezembro de 2004 - Ano XXVII - Nº 118